Ver e escrever filmes
Sobre três filmes que vi na última semana: “The Future” (Miranda July), “Sans toit ni loi” (Agnès Varda) e “Memória de Helena” (David Neves)
Nas últimas semanas, devo ter começado pelo menos cinco textos para publicar aqui, sem sucesso em desenvolver nenhum. Tentei falar de coisas que eu odeio (lançamento recente de nepobaby, polêmica envolvendo crítica no Twitter) e coisas que amo (filmes de festa, o filme Maestro) mas uma dificuldade de me comunicar com sinceridade sempre me parava depois das primeiras palavras do rascunho.
É originalidade que falta na minha escrita? Todos os textos publicados por aí são realmente iguais? Tenho referências demais ou de menos? Um texto deve ser pessoal ou objetivo? Não acho que alguém tenha a resposta para alguma dessas perguntas – apesar de muitos se acharem donos de toda razão quando o assunto é o que e como escrever (eu inclusa). Minha maior dificuldade hoje talvez seja regular a escrita de acordo com as expectativas de quem está lendo: escrevo aqui para amigos próximos, amigos não tão próximos, gente que gosta de mim mas não gosta de cinema, gente que gosta de cinema mas não gosta de mim, meu pai etc.
Talvez a resposta para essa e outras questões que vêm me atormentando seja mesmo tentar fazer a diferença confiando totalmente na minha percepção, sem pensar na “cadência dos planos” ou a “verdade por trás da imagem” – mesmo que eu não veja de que forma meus sentimentos ao ver um filme ou ler um livro sejam de interesse de alguém e ache que estão todos mentindo quando dizem que é isso que querem ler. Pode ser verdade – eu mesma passei os últimos dois dias lendo ensaios pessoais na The Cut, indo de casos de divórcio a ladainhas de fraude.
Se você acha que já leu alguma coisa que escrevi aqui em algum outro lugar, pode ser verdade – foi o que percebi vendo The Future da artista americana Miranda July, quando a personagem principal me deixou de boca aberta com uma fala parafraseada do meu diário. Não era algo comum, sentimentos como tristeza ou confusão, era algo muito específico que não tenho a coragem dela de revelar – você vai ter que ver o filme para tentar decifrar.
Concordo com um texto que li há algumas semanas quando o autor diz que a universalidade talvez seja a pior característica a se apontar em uma obra – ainda acho que pior do que quando a crítica faz isso é quando o próprio autor se propõe universal em sua escrita. Minha experiência com o filme de Miranda July pareceu o exemplo perfeito disso. Recebi a indicação do filme e fui ver logo em seguida – coisa que nunca faço, inclusive deve ter sido o primeiro filme que vi sozinha em casa em alguns meses. A honestidade sem-vergonha de uma trama narrada por um gato falante e embalada por uma música de Beach House irritou muita gente, que passou a descrever o realismo fantástico de July como pretensioso e falso. Talvez, se eu tivesse assistido a essa obra – tão marcada por uma estética que grita arte performática do início da década de 2010 – em outro momento e com outra companhia, teria uma impressão mais próxima à dos (muitos) críticos de The Future. Mas, hoje, tive a chance de ver, nessa tentativa de ser único a qualquer custo, uma profundidade que foi negada a quem assistiu a ele como quem julga os breguíssimos números de dança que a personagem principal ensaia em frente à câmera do seu MacBook.
Os movimentos bruscos e decisões questionáveis de The Future são agressivos ao escancararem a dor terrível de viver o mais fútil dos problemas que um casal jovem enfrenta no “meio do começo” da vida. É a história milenar de traição, a vontade de parar no tempo depois de fazer tudo errado e as consequências que essa suspensão do tempo e do julgamento terão no futuro, quando o primeiro olhar já parece longe demais para marcar onde ou quando foi trocado. É a repetição inevitável do mau exemplo, sempre envolto de uma magia que pode estar na lua que fala com você mas não dá nenhuma resposta ou no gato que olha nos seus olhos com mais palavras do que qualquer um poderia te dizer. Entre estar no escuro do lado de fora ou preso entre as grades que guardam uma redenção que não entra em cena até que já é tarde demais. A beleza de um filme pode estar em se enxergar no absurdo das imagens que o compõem.
Some things that happened for the first time
Seem to be happening again
And so it seems that we have met before
And laughed before, and loved before
But who knows where or when?
Na mesma noite vi um filme que foi colocado do lado oposto do cânone cinematográfico: Sans toit ni loi, de Agnès Varda. Não há muito o que posso dizer sobre a obra-prima da diretora que muitos já não tenham dito, então me atenho a um detalhe que aparece na maioria dos textos que se referem a ele. Parece impossível para a maioria dos críticos falar sobre um filme dirigido por uma mulher sem citar o tal do glorioso “olhar feminino”. É claro que ninguém explica o porquê do olhar de Varda sobre a personagem de Sandrine Bonnaire ser decididamente feminino, mas eles não falham em o mencionar mesmo assim.
Em um texto para a New York Review of Books, a escritora Namwali Serpell lembra de quando Charles Dickens leu a primeira versão anônima das histórias que seriam publicadas no livro "Scenes of Clerical Life" sob o então desconhecido nome de George Eliot. Sem saber que Eliot na verdade era Marian Evans, Dickens escreveu ao editor da revista que havia publicado as histórias: “Eu teria sido fortemente inclinado, se tivesse sido deixado aos meus próprios dispositivos, a me dirigir ao referido escritor como uma mulher. Eu observei o que me parecem toques tão femininos, nessas ficções emocionantes, que a garantia na página de título é insuficiente para me satisfazer até mesmo agora. Se elas não tiverem surgido de nenhuma mulher, eu acredito que nenhum homem jamais teve a arte de se tornar mentalmente tão parecido com uma mulher desde o início do mundo.” Ao decorrer do fantástico ensaio, Serpell tenta desvendar o que teria dado a impressão de que um olhar feminino estaria por trás daquelas histórias – protagonizadas por homens – a Dickens.
Existe algo na forma que denuncia uma escrita – ou direção – feminina? Em “Um quarto só seu”, Virginia Woolf analisa a existência de uma frase marcadamente feminina e em “The laugh of the Medusa” Hélène Cixous define que “a mulher deve escrever a si mesma: deve escrever sobre mulheres e trazer mulheres para a escrita, da qual foram expulsas com tanta violência quanto de seus corpos.” Similarmente amparado na psicanálise, o infame “Prazer visual e cinema narrativo” de Laura Mulvey cunhou o incessantemente desvirtuado conceito de male gaze, que se voltaria ao “olhar feminino” como resposta à opressão do cânone cinematográfico. O mais interessante para mim no texto de Mulvey é a negação do cinema narrativo como forma e a imposição de algo além – seja nos documentários que produziam Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos no coletivo Les Insoumuses ou no próprio cinema de Mulvey, que no experimentalismo de Riddles of the Sphinx ecoa algo de Jackie Raynal ou Shirley Clarke – mas isso fica para outro texto.
Discordo de Cixous quando ela diz que a escrita feminina deve ser escrita na “tinta branca” do leite materno. Afinal, não é tudo ficção? Serpell resume a tentativa terrível da crítica em limitar os temas da ficção a algo centrado na identificação: “Ultimamente, parece que o espelho da ficção se aquietou, encolheu, virou em nossas mãos. Agora todos nós só queremos olhar para nossas selfies.” Tudo deve ser feito para caber na prateleira que designa um reflexo do leitor (“literatura das chamadas ‘sad girls’”) e, é claro, do autor, que só “deve escrever o que ele sabe”. Talvez seja esse o grande mal que a tendência da autoficção fixou sobre nossos tempos.
De volta ao filme de Agnès Varda: de onde vem o olhar que “trabalha tão bem o feminino” de Mona em Sans toit ni loi? Acho que não há nada no filme que requisite a afirmação do gênero da diretora além de uma tendência dos bons homens em afirmar seu apreço pelo maravilhoso cinema de mulheres. O que há em Varda é uma câmera atenta a cada passo da andarilha de Bonnaire e às impressões que os outros personagens constroem da garota enigmática cuja origem não é revelada ou sequer investigada. É um filme que foge dessa agenda de representação para construir a tragédia que já é anunciada no início – de forma similar ao que faz Bresson ao anunciar, por exemplo, que o condenado à morte há de escapar no fim do filme. Meu momento preferido do filme é aquele em que Mona divide uma taça de conhaque com uma senhora burguesa que aguarda a morte em seu casarão. Uma subversão que suspende o destino das duas condenadas à morte durante alguns minutos do riso contagiante de Sandrine Bonnaire.
Por fim, também condenada é Helena, do amplamente detestado Memória de Helena, de David Neves. Minha preferência talvez esteja simplesmente no tema “memória” – e nos incontáveis gatinhos que enchem as imagens em Super-8 de Helena. Retomo minha frase preferida de Janet Malcolm em “Still Pictures” (cuja tradução será lançada amanhã (20) pela Companhia das Letras): “The gold is dross. The glitter of memory may be no less deceptive. The past is a country that issues no visas. We can only enter it illegally.” Como no livro de Malcolm, o filme roteirizado por Paulo Emílio Salles Gomes se constrói a partir de registros feitos pela protagonista e seus amigos e familiares durante a adolescência.
Não acho que um “filminho” seria capaz de pintar em imagens tão claras a quietude do despertar sexual de uma garota que não pode falar senão através das memórias que deixou para os dois “amigos” que sobraram daquele tempo. E não vejo ninguém reclamando da narração autoevidente de filmes como Pickpocket, em que o personagem literalmente repete suas ações logo antes ou depois de realizá-las. É um filme simples, incipiente e silencioso nas suas ações – o único momento em que a plateia parece reagir é quando Joel Barcellos salta do avião com um sorriso estampado no rosto, quase apagando a triste relação que envolve os três personagens que enquadravam a cena logo antes. Nos cortes rápidos demais, o filme toma a forma da memória – objetivamente proibida, difícil de confiar e acessar em sua integridade.
Nos últimos dias me peguei vendo filmes que pareciam escancarar coincidências demais com minha vida em um momento muito específico, por isso meu Letterboxd talvez esteja parecendo uma festa de cinco estrelas. Memória de Helena não foi um deles, mas foi um dos mais marcantes por transformar uma prosa tão banal – me lembrou um dos meus contos preferidos de Lygia Fagundes Telles, “A Sauna”, e admirar qual era a relação criativa entre ela e Paulo Emílio na escrita – em algo tão belo em sua tentativa de capturar o inefável de quem rememora imagens do passado.



